A carta.

16/09/2011 21:25

 

(SALA ESCURA. UMA MESA. DUAS CADEIRAS. DUAS PESSOAS).

Bem, uma das poucas coisas que eu sei sobre esse homem é que ele gostava muito de alguém-essa foi a ultima coisa que eu o ouvi balbuciar-com quem ele se encontrava constantemente. Não, eu nunca troquei nem uma palavra com o seu companheiro. Bom, eu sei que se tratava de um homem pela essência do perfume masculino que usava. Sim, poderia se tratar de uma mulher usando o perfume daquele homem, o (a testemunha bate três vezes na mesa de madeira onde apoiava, minutos atrás, a mão suada)... Mas os gemidos escutados por mim todas as noites não me lembrava nem a mulher mais masculina que já vi em toda a minha vida, a barbada do circo da esquina. Os gemidos eram de homem, disso eu tenho certeza.

Como eu já disse, eu nunca troquei muitas palavras com ele. Para ser mais exata, foram duas palavras somente. Nos cumprimentamos no elevador, nada além disso.

André parecia ser um homem frio, bastante frio.

O que aconteceu ao seu gato? Bem, eu descobri a existência desse gato quando a minha gatinha começou a fugir constantemente, aí supus que ele tivesse um gato e talvez por isso minha gatinha fugisse toda madrugada para encontrar o seu gato. Afinal, qual seria a melhor companhia para um homem solitário se não, o felino.

Desculpe a distração, senhor.

Bem, como eu dizia tudo o que eu falo são somente suposições, muito bem embasadas em tudo o que presenciei sobre a curta residência do Sr.André, no apartamento ao lado.

Agora me recordo de outro acontecimento ocorrido, exatamente, há quatro semanas seguidas antes da fatalidade. Todos os dias, durante as quatro ultimas semanas, as quais citei, após as gemidas no apartamento ao lado me direcionei a varanda e vi os dois homens, André e o outro rapaz, sempre de costas e fumando muito. Eu não sei o que acontecia, mas esse rapaz sempre parecia um pouco diferente toda vez que eu o via. Acho que deve ser a minha vista cansada pela idade.

Sempre muito estático, a única movimentação do homem que acompanhava o Sr.André, era a do braço que se erguia levando um cigarro em direção aos lábios. O corpo dele só estava encoberto por uma camisa quadriculada, a mesma de todos os outros dias. Eu sempre senti algo estranho. Eles sempre mantinham os mesmos passos todas as noites. Após a fumaça sessar, os dois voltavam para o apartamento e alguns minutos depois eu sempre ouvia a porta de entrada do apartamento fechar. Aí tudo terminava para recomeçar, novamente na manha seguinte, até a noite de ontem, quando o encontraram na cama. Na verdade fui eu quem o encontrou. Minha gata fugiu em direção o apartamento dele. A porta estava somente encostada e eu acabei encontrando somente o corpo jogado na cama e essa carta. (o homem a sua frente estende a mão direita em direção à senhora a sua frente). Sustenta o envelope

(Na palma da mão esquerda percebendo que há algo escrito na frente do papel dobrado). Então leu "para Fernando", abriu a carta e começou a lê-la: “Esse será (talvez) o nosso ultimo contato, onde tentarei te explicar em palavras o que nunca consegui expressar em gestos.

Eu sempre te amei. A sua decisão de me deixar me pegou de surpresa, eu não esperava. Isso me desestruturou por completo, talvez isso explicará o estado em que me encontrarão.

Após o término, eu procurei algo que me trouxesse alguma felicidade, porém só encontrei tristeza e prazer fugaz entre muitas coxas, que pareciam as sua, mas não eram.

Todas as noites eu saia pelas ruas da cidade em busca de pessoas que pudessem preencher esse buraco que você deixou aberto no meu peito. Todos pareciam com você. Uns mais, outros menos. Porém, nenhum era você.

Eu os fazia vestir aquela camisa quadriculada monocromática, sem nada além dela, passava neles o perfume que você gostava e os colocava na varanda e depois oferecia um cigarro. Tudo da mesma forma como era com você, mas sempre percebia que nenhum daqueles caras iria ser você. Então eu os colocava para fora daqui e passava a noite inteira chorando, até que o dia seguinte chegava e a busca recomeçava.

 Essas procuras incessantes, que nunca me trouxeram você, precisavam parar. A culpa do que irá acontecer em alguns instantes não é sua, e um dos objetivos dessa carta é te dizer e te mostrar isso. Saiba que eu sempre te amei muito e te amei mais a partir do dia em que você me deixou. Eu só te peço um ultimo desejo, não lembre-se de mim como uma folha no outono, mas sim como os belos ipês da primavera." -o homem, parado na frente da senhora, nada falou. Apenas uma lágrima escorreu do olho esquerdo. Então ele levantou da cadeira onde permanecera sentado por quase duas horas:

-Obrigado senhora... Como é o seu nome mesmo?

-Conchita. Você pode me chamar assim. E o seu?

-Fernando. 

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