Anônimo.

08/09/2011 13:38

    Essa é a história de Anônimo, mais um brasileiro que como muitos, lutam por uma sobrevivência nessa selva de pedra.

    Anônimo acordava todos os dias a mesma hora da manhã, seis. Seis horas da matina era quando se podia dizer que ele realmente estava acordado. Diariamente o despertador de seu celular tocava as cinco e cinquenta e cinco, mas como de costume, Anônimo (e muitos outros brasileiros) esperava mais cinco minutos para começar a rotina diária. Pegar o celular, abrir os olhos, ver a hora, sentar na cama, colocar os pés no chão (primeiro o direito, sempre “começar as coisas com o pé direito dá sorte”), tomar impulso para enfim levantar-se e dar o primeiro passo. Uma partitura corporal. Todos os dias as mesmas coisas, os mesmos movimentos e pensamentos. Respirava fundo. Apanhar a toalha na porta do guarda-roupas, tirar o pijama, envolver a cintura com a mesma toalha que fora tirada da porta de madeira talhada do guarda-roupas, olhar no espelho o rosto marcado pela coberta, andar para o banheiro, vinte-e-cinco-passos-cravados, a água fria do chuveiro comum fazia com que o seu corpo despertasse ainda mais. Os pelos de todo o corpo arrepiavam-se. O seu banho não era muito longo, pois quase nunca lhe restava tempo para quase nada. Enxugar o corpo, vestir as roupas, benzer-se três vezes, abrir a porta, mais um passo, fechar a porta, caminhar.

    Todos os dias, Anônimo, pegava o mesmo ônibus, com as mesmas pessoas. Sentava-se no mesmo lugar, o último do lado direito de quem vai em direção a direção contrária de quem vem do fundo do coletivo, sempre. Tirava da mochila um fone para mais uma vez escutar as mesmas músicas do dia de ontem e de muitos outros “ontens” que sempre passavam. A primeira música era a mesma, “Cotidiano” de Chico Buarque. Enquanto o som entrava pelos seus ouvidos, o seu olhar se perdia entre as janelas a sua direita, que lhe transportava para outro lugar, para dentro de sua própria cabeça. Ele, Anônimo, costumava dizer que no ônibus era o lugar em que a felicidade e a paz os encontravam, porque era onde as suas ideias e poemas surgiam. Sim, ele gostava de escrever, de se transportar em palavras para o papel.

    Oito e quinze, puxar a corda do sinal, descer, andar mais trezentos-e-quarenta-e-cinco-passos, chegar ao trabalho, “bom dia”, sem resposta, anotar o dia do mês na agenda velha de capa desbotada. Só assim percebia quanto o tempo passava depressa, as futuras rugas chegando mais cedo.

    As pessoas passavam por ele, mas era como se Anônimo não existisse, como se fosse somente mais um entre muitos outros, e era. Para as pessoas, Anônimo era somente “ele”, “aquele”, “como é mesmo o nome dele?”... Ninguém se importava e nem se interessava em saber.

    Abrir portão, fechar portão, bater a campa a cada quarenta-e-cinco-minutos-contados. Tudo muito automático, robótico, comum.

    Quando o relógio marcava dez e dezesseis, ele sentava-se no banco do hall de entrada da escola. Aquele mesmo banco que sentara ontem, antes de ontem... Assim esperava a moça, aquela moça branca, alta e com perfume de pitanga, que todos os dias passava as dez e vinte para encantar o olhar de Anônimo e adocicar algum instante de seu dia. Mas ele não sabia o nome dela, mas costumava chama-la (mentalmente, porque quase nunca falava) de Eduarda. Ele achava muito importante chamar a moça pelo nome, por mais que não soubesse o verdadeiro nome. Anônimo sabia o quanto era triste não ser lembrado, não ter um nome para os outros, não ser um nome para os outros.

    Anônimo esperou, dez,vinte, trinta, quarenta-e-cinco-minutos. A campa batia mais uma vez, mas ela não veio. Eduarda não veio. Ele andou até o banheiro, lavou o seu rosto com a água que escorria da torneira cinza. Anônimo olhou-se no espelho e percebeu que algo havia mudado, ele já não era mais tão anônimo. Pelo menos não para si próprio. 

 

Foto: Jairo Figueiró

 

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