Minha pequena Sophie.

16/08/2011 19:34

Ela voltou. Quase não a reconheci.

Os cabelos longos e loiros deram lugar uma pelugem negra, alisada e muito simétrica.

Eu juro que, quase não a reconheci.

As pequenas sapatilhas, os pés não cobriam mais.

Talvez alguém as tenha furtado. Sim, somente isso explicaria o motivo,

Daquela menina estar calçando aquela parafernália, aparentemente tão alta e desconfortável.

Procurei, incessantemente, os tantos anéis que sempre carregava consigo.

Lembro-me perfeitamente, eram sete na mão esquerda e quatro na direita.

Mas eles não estavam lá. Havia somente um pequeno arco dourado que, envolvia o dedo anelar da mão esquerda.

Tudo parecia muito estranho, muito “não normal”, esquisito.

Nada mais, daquela menina era como antes.

Os vestidos/sais rodadas, a unhas sempre com esmalte descascado, o sorriso metálico, a carteira feita de canudinhos, o seu rosto, boca, olhos. Tudo era bastante diferente.

Chegou um momento em que, eu resolvi não avançar nem mais um passo, pois aquilo não era ela. Foi quando, aquela criatura, parada na minha frente disse: -Oi.

Eu não respondi, fiquei estático na mesma posição. Me perguntando e afirmando mentalmente, milhares de vezes.

-Quanto de você se perdeu! Quanto de você foi deixado para trás?

A voz era de Sophie, somente a voz. Parecia um sonho, como se tudo o que era daquela menina tivesse sido retirado, lhe restando somente a voz doce e suave.

Sophie andou em minha direção, mas ao mesmo tempo em que caminhava vindo a mim, se afastava ainda mais. Um paradoxo vivo, alí, diante dos meus olhos.

O perfume de jasmim, que me fazia sentir a sua chegada, toda vez que antes de bater três vezes na porta de casa, não pairava mais no ar. O cheiro que eu sentia agora era bem diferente. Algo forte, essência de ferro misturado com angústia e decepção. Nunca havia sentido aquele perfume antes. Foi quando ela começou a falar.

Palavras e mais palavras se desprendiam no ar, eram desconexas, eu não conseguia acompanhar o ritmo em que as palavras eram lançadas da sua boca. Lembro-me que antigamente, quando ela falava, eu ficava fascinado, estático. O som que saia por entre os lábios era sincero, ameno. Os olhos brilhavam a cada palavra. Os olhos da pequena Sophie brilhavam. Eles não brilham mais.

Por favor, me responda. Quanto de você foi deixado para trás? Quanto de você se perdeu?

Eu fechei os olhos fortemente, desejando ver a verdadeira menina ao abrir, mas ao desvincular os cílios superiores dos inferiores, só via a mesma imagem, aquela que não lembrava nada a de Sophie.

Senti uma imensa dor, não sabia exatamente onde. A dor assemelhava-se a de um dia, quando cortei o dedo com uma folha de papel.

Olhei fundo nos olhos dela. Ela ensaiou um abraço, mas quando tentou se aproximar mais, uma força brutal afastou-a de mim. Mais e mais, cada vez mais até ela sumir.

Eu corri. Eu tentei socorre-la, mas a única coisa que havia no final do corredor era, um pedaço de espelho e a seguinte frase escrita com batom vermelho ruge “Quanto de mim ficou para trás?! Quanto de mim se perdeu?!”

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